— Sim, em Júpiter
A potência dos raios neste planeta é tão vasta que a energia liberada é comparável à detonação regular de ogivas nucleares.Júpiter é coberto por tempestades com relâmpagos intensíssimos, mas medir sua potência sempre foi um desafio técnico por causa da atmosfera densa do gigante gasoso. Como relata o Science.org, um novo estudo publicado na revista AGU Advances mostrou que descargas elétricas individuais em Júpiter podem ser de 100 a 10.000 vezes mais energéticas do que seus equivalentes na Terra. A descoberta foi possível graças aos dados da espaçonave Juno, da NASA. Posteriormente, a missão Juno forneceu dados mais detalhados sobre os relâmpagos em Júpiter, confirmando sua existência e suas características.
Um relâmpago terrestre médio libera cerca de 1 bilhão de joules de energia. Os relâmpagos jupiterianos mais extremos carregam 10 trilhões de joules. Esse valor é equivalente a 2.400 toneladas de TNT, o que corresponde a um sexto da potência da bomba atômica lançada sobre Hiroshima. Com base na frequência dos flashes registrada pela Juno, as tempestades do planeta geram, a cada minuto, uma força comparável à de várias explosões nucleares.
Física da tempestade extraterrestre
Os cientistas supõem que os relâmpagos de Júpiter e da Terra têm a mesma origem: o atrito entre partículas de vapor d’água e gelo nas nuvens cria uma diferença de potencial. A diferença está no fato de que, na atmosfera de Júpiter, a água se combina com amônia. Esse processo leva à formação de granizos específicos, que alteram de forma radical a mecânica do acúmulo de carga dentro da tempestade. Um estudo publicado na Nature Astronomy mostrou que os relâmpagos em Júpiter se formam por mecanismos semelhantes aos da Terra, incluindo convecção e eletrificação das nuvens.
Para coletar informações, a sonda Juno utilizou um radiômetro de micro-ondas. Originalmente, o instrumento foi projetado para buscar compostos químicos por meio da detecção de ondas de rádio, mas também se mostrou capaz de captar a radiação de rádio produzida pelos impactos dos relâmpagos. Devido à enorme quantidade de tempestades no planeta, foi difícil para a espaçonave isolar descargas específicas. Os pesquisadores aproveitaram um período de relativa calmaria meteorológica e sincronizaram os dados do radiômetro com fotos da câmera da Juno e imagens do telescópio Hubble. Isso permitiu estudar de forma isolada quatro grandes tempestades, com até 3.000 quilômetros de diâmetro, nas quais eram registradas em média três descargas por segundo.
Catalisador da vida
Segundo o Science.org, os pesquisadores acreditam que as estimativas obtidas para a potência dos relâmpagos jupiterianos ainda estão subestimadas. Descargas elétricas desse porte liberam energia de muitas formas: não apenas nas faixas de rádio e óptica que podem ser detectadas, mas também em intensas emissões térmicas, acústicas e químicas.
Relâmpagos extremamente potentes desempenham um papel essencial no início e na aceleração de reações químicas complexas, com uma energia comparável à de erupções vulcânicas. A existência de vida em Júpiter é extremamente improvável por causa da estrutura gasosa do planeta, mas essas condições climáticas extremas mostram como a química prebiótica pode ser acionada no espaço. O estudo desses processos de alta energia depende do futuro da missão Juno, cujo financiamento está atualmente sendo reavaliado pela NASA.