— Bastante sombrio
O financiamento está congelado e a salvação de vidas tornou-se um instrumento de chantagem geopolítica.O programa de combate à AIDS do presidente dos Estados Unidos, o PEPFAR, que ao longo de 20 anos ofereceu tratamento a moradores de 55 países e salvou cerca de 25 milhões de vidas, está sob ameaça de ser encerrado. Segundo a Science.org, um dos projetos mais bem-sucedidos da saúde global está sendo desmontado por entraves administrativos e cortes no financiamento.
De acordo com a análise do Council on Foreign Relations, a interrupção do financiamento do PEPFAR pode levar a mais de 4 milhões de mortes por AIDS e a 6 milhões de novos casos de HIV até 2029.
No ano passado, a administração de Donald Trump desmantelou a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que atuava como principal operadora do programa. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) passaram a ser o novo executor principal, mas o órgão enfrentou uma grave falta de recursos. O Departamento de Estado transferiu para as contas dos CDC apenas metade do orçamento aprovado pelo Congresso. Analistas alertam que, sem a retomada de um financiamento integral, o programa pode parar já em junho.
Financiamento em troca de recursos
No âmbito da nova estratégia “America First”, as condições para a concessão de ajuda mudaram radicalmente. Antes, os orçamentos eram definidos em conjunto com ONGs internacionais e autoridades locais. Agora, o Departamento de Estado exigiu que os países participantes assinem novos memorandos de entendimento, incluindo um rígido plano de cinco anos para eliminar totalmente a dependência do apoio americano.
O processo de negociação ficou ainda mais difícil por exigências políticas e econômicas. Zimbábue e Zâmbia já se recusaram a assinar os documentos. O motivo é que os EUA, em troca do financiamento do tratamento do HIV, pediram acesso a minerais estratégicos e a informações internas sobre surtos de doenças. Especialistas em saúde destacam que usar a assistência médica como instrumento de pressão direta prejudica o controle da epidemia.
Segundo a KFF, o vencimento da última reautorização do PEPFAR em março de 2025 levantou dúvidas sobre o futuro do programa e sua capacidade de continuar cumprindo sua missão.
Perda de controle e riscos de corrupção
A mudança no mecanismo de financiamento, pela qual os recursos passarão a ser enviados diretamente aos governos estrangeiros, reduz de forma crítica a transparência. Especialistas temem que essa abordagem dificulte a identificação de casos de corrupção e retire do programa a devida responsabilização.
O sistema já enfrenta uma saída em massa de profissionais e a suspensão da publicação regular de relatórios de desempenho. Segundo a Science, avaliações internas do início deste ano mostram uma queda acentuada nos testes de HIV e uma piora no controle do vírus entre pacientes em tratamento. As reuniões interinstitucionais regulares foram interrompidas, e as decisões passaram a ser tomadas em meio a uma forte falta de informação.
O Congresso dos EUA formalmente não revogou o PEPFAR, mas a atual reorganização administrativa praticamente paralisou a iniciativa. A comunidade médica afirma que, em sua forma anterior e eficaz, o programa deixou de existir.